Perdi a conta...

[Sábado, 29 de junho de 2013]

...de quantas vezes eu disse "eu não tenho mais vida" só essa semana. Acho que bati meu próprio recorde.

Deixei o emocional tomar total conta de mim nos últimos dias, nas últimas semanas. E, nesse meio tempo, a Negatividade achou o cantinho que tem sido dela nos últimos anos. Depois de segunda-feira, a Culpa voltou para dividir o espaço com ela. E lá estava o dono daquele quartinho escuro, o Censurador: os três se juntaram novamente e resolveram fazer da minha vida um inferno, especialmente nos últimos dias. Não sei porque qualquer vislumbre de sentimento dói tanto, porque tudo tem que ser tão sofrido... especialmente porque ou eu sofro em relação ao passado ou ao futuro, e nenhum dos dois existe agora. O Agora tem sido tão vazio, essa sensação de "não ter mais vida" não tem relação somente com o fato de eu ter que dedicar a maior parte do meu tempo pros estudos.

O acontecimento de pouco mais de um mês atrás mostrou tudo isso de forma mais clara, mexeu tanto comigo quando nem fazia mais sentido, mas, por um momento, eu me senti mais viva por ter acontecido algo aqui dentro: mesmo que fosse uma dor referente a algo que já estava resolvido pra mim. Percebi que meu psicólogo tem razão quando ele fala pra eu ter cuidado pra não me tornar masoquista, pra não confundir dor com algo bom e as coisas boas como não mais boas - ou coisa que o valha. Percebi que, para que eu me sinta viva, eu acabo buscando algo que doa: se não tem nada na minha frente, eu volto lá atrás, olho pra uma das minhas cicatrizes e revivo cada segundo de dor de quando aquele machucado foi feito. Não suporto o "morno", o "mais ou menos", preciso de intensidade... só que, quando paro para pensar, minhas últimas experiências realmente intensas me causaram muito mais dor que alegria. Mas, agora, eu sinto essa necessidade de paz. Há muito tempo nada está realmente bom, sempre tem um "mas"... muitas coisas melhoraram, outras coisas pioraram, mas não sei quando eu pude dizer algo tipo "eu realmente estou feliz" em relação a um aspecto que seja da minha vida. Há muito tempo, eu não consigo dizer algo mais que "tudo indo".

Queria entender porque eu me puno tanto, porque eu não acho que eu mereça nada de bom. Sempre acho que tenho que estar preparada pro pior, pois quando alguma coisa boa acontece sempre acho que tem algo errado; que a vida vai rir da minha cara e tirar aquilo de mim tão logo eu me acostumar com o que quer de bom ela tenha me dado. Quando consigo me empolgar com alguma coisa, logo penso "não posso", "não é pra mim", "não seja ridícula" e variações de um mesmo tema. Me pergunto como eu não tentei me matar nos últimos quatro anos, porque olha, a coisa foi de mal a pior. Muitas coisas só consegui fazer por ter a companhia de outras pessoas. Mas agora, que eu me isolei tanto, eu fico preocupada. Agora estou aqui, dois anos depois, finalmente fazendo essa monografia. Consegui encontrar algo que realmente me interessasse, mas não tem sido fácil. Tenho feito em dois dias o que era pra ter sido feito em duas semanas... tomando xícara atrás de xícara de café para me manter acordada e me xingando de todos os nomes porque isso é simplesmente inadmissível, eu só trabalho seis horas por dia e não faço mais nada além do Francês, poderia dedicar no mínimo umas duas horas por dia pra estudar. Tento voltar a, tipo, 2007, e me pergunto como eu dei conta de tanta coisa... foi um ano tão difícil, mas eu era tão forte e feliz apesar de tudo, sim.

Fazer tudo sozinha é simplesmente tão difícil! Por que eu abandonei totalmente minha vida social? Por que eu não tenho mais vontade de sair para fazer coisa alguma? Se não fosse minha irmã nesses últimos tempos, eu nem sei. Taí uma coisa boa, nosso relacionamento melhorou MUITO. Mas quando percebo alguém no trabalho falando com algum(a) amigo(a) ao telefone me dá vontade de morrer porque há tanto tempo eu não sei o que é isso. O que eu lembro é que com aquele surto eu simplesmente bati o pé e comecei a gritar um monte de coisas que eu não queria mais. E eu tava TÃO cansada de certos tipos de programas... Sempre me orgulhei por ter amigos tão diferentes dos outros e de mim, mas de repente comecei a me sentir deslocada, com uma vontade louca de ir embora pra bem longe e começar tudo de novo pra ver como eu me sairia. Por que eu acho tão mais fácil correr para debaixo do cobertor, esconder o vinho derramado no piso de madeira com um belo tapete? Aquilo ali por muito tempo vai corroer a madeira, e ela não vai mais voltar a ser o que era antes. Não era melhor ter limpado tudo na hora? Porra, eu só queria conseguir encontrar um meio termo, por que diabos eu levo tudo tão a ferro e fogo?! Como eu fui deixar as coisas chegarem a esse ponto? Caramba, eu era bonita, animada, divertida, interessante; eu saía três finais de semana e um não porque não ver meus amigos me fazia tão mal (depois inverti, saía uma vez e três não e depois parei de sair absolutamente); eu dançava; eu recuperava todas as minhas energias só de poder estar de frente ao mar uma vez por ano... Enfim, o pior é eu citar tudo isso como se eu tivesse no meu leito de morte. É horrível essa sensação, de que tudo o que podia haver de bom já passou. Sinto minha vida agora como nada mais que uma lista de obrigações. Comentei essa semana com minha irmã que agora que vai fazer dois meses que eu efetivamente comecei minha monografia. Considerando que, na melhor das hipóteses, eu acabo em outubro, eu ainda tenho quatro meses pela frente. E, por Deus, não dá mais para viver assim todo esse tempo. É triste demais, sofrido demais, pesado demais e, no fim das contas, desnecessário demais. Nada disso faz mais o menor sentido. Há dois anos, eu senti que eu precisava parar, pensar no que eu queria de verdade... achei que ia ser tão fácil, mas, um ano depois, consegui foi uma trombose cerebral. E parece que, quanto mais eu chego perto disso, de concluir essa etapa, mais me custa, mais me dói, mais eu perco outra coisa. Queria entender porque isso se tornou TÃO importante pra mim, a ponto de minha vida nesse meio tempo ter se resumido a isso, sendo que nem é algo que eu quero, é só a conclusão de uma etapa pra que eu possa, enfim, completar a prova, ganhar minha medalha de participação, poder partir pra próxima. Falta tão pouco, mas eu tô tão cansada... fico me perguntando quanto de mim vai ser exigido até o fim e se eu vou aguentar. No fim das contas, preciso me lembrar de que, apesar de tudo, eu tô viva: e, se eu quiser que essa vida continue valendo a pena, eu preciso levantar após cada tombo e ir em frente, um passo de gueixa por vez, que seja, mas sempre em frente, que, só assim, eu vou conseguir enxergar todo um horizonte de oportunidades à minha frente.




Atreyu: Nós já percorremos os 15000 quilômetros?
Falkor: Não, somente 14876 quilômetros, em linha reta de dragão.

[...]

Falkor: Porque tudo se resolve, Atreyu. Jamais desista, e a Sorte irá encontrá-lo.

TANTOS anos depois e essa história sempre me salva nos momentos de desespero. Uma das primeiras coisas a fazer depois que eu me formar é reler esse livro (apesar de que nada me impede de lê-lo antes). Outra é tatuar meu Dragão da Sorte - conforme a descrição do livro, é claro (ele não tem cara de cachorro).

2 Responses
  1. Gugu Keller Says:

    O cansaço do cansaço pode ser o primeiro passo.
    GK


  2. Alexandre Says:

    Claro que você merece tudo de bom, eu sei disso. Só não sei por que tudo dá errado. Só espero que no fim de tanto martírio tenha uma recompensa. Como já perdi tempo nessa fase da minha vida, mais que você. Acho que todo mundo está na minha frente. Não consigo aprender a viver. Quero que tudo seja perfeito demais e não vivo. Porra, pessoas sem nenhuma condição são mais felizes que eu. Ficou pensando se sou infeliz por que sei demais e quero além do que é possível e o bom mesmo é ser ignorante a tudo isso.
    Quando tem um aspecto da minha vida dando certo, eu olho somente para o que não está. Fixamente, mergulho de cabeça desesperadamente até dar um jeito naquilo. Tanta negligencia com todo o restante tem um preço. Acabo estragando alguma outra parte que funcionava. Daí tento voltar atrás e normalmente não dá. Fica uma bola de neve e eu tentando descobrir um jeito de tudo dar certo. Várias e várias noites de sono perdidas revirando o meu passado e tentando planejar o futuro em todas as suas possibilidades. Não consigo pregar o olho sem ter um “plano” para sair dessa. Heh. pena que o futuro não me pertence.
    Queria ter essa força sua de levar a coisa para frente mesmo aos trancos e barrancos. Fui ao oculista e minha vista está exatamente como sempre esteve. Estou trabalhando tanto que meus olhos não aguentam mais. E agora? Queria simplesmente botar uns óculos na cara e resolver esse problema. Nem isso posso, eu não, tenho que aprender a me controlar.
    Pouco do que temos feito ultimamente nos agrada, e ainda tem mais por vir. Isso coloca um peso nos ombros, para que viver carregando pedras, Sísifo? Culpo-me muito por desviar do que devia fazer, mas se ficasse preso só nisso. Não teria aguentado. Uma ação sabota a outra aparentemente.
    Não sei você, mas depois que isso terminar vou começar vida nova. Estou precisando de novos ares. Já sofri tanto que e olho a minha volta é tão deprimente. Não há nada de errado, só uma tonelada de lembranças ruins. Vai ter que ser tudo novo.