Feliz dia do livro o/



E olha ELE ali, ó

A história sem fim

Ao ler o livro, Bastian vai se lendo pouco a pouco. Enfronha-se em sua grande busca interior. [...] Bastian terá que enfrentar o vazio interno, o vazio afetivo que lhe consome a alma. É o Nada, capaz de engolir todos os seus sonhos e cegar quem dele se nutrir.

O livro começa a brotar dentro de Bastian. [...] Oferecem-lhe a jóia, o brilho do qual tanto sonhou e, assim, adquire o poder de satisfazer todos os seus desejos. [...] Entretanto, quanto mais realiza seus desejos nesse mundo de faz de conta, mais se afasta de si mesmo, até perder todas as lembranças que integravam sua história. A ausência de passado exclui o futuro e a esperança de projetos. Não há desejo sem memória.

Para retornar ao mundo dos homens, Bastian enfrentará uma jornada dolorosa. Não basta ir embora de um lugar, é preciso que se queira ir para outro. Só um verdadeiro desejo é capaz de guiar nosso protagonista. Bastian se perguntará: ”De onde virão os desejos? O que realmente é um desejo? E porque não podemos desejar o que queremos?” (...) “Não é possível invocar ou afastar os desejos deliberadamente. Eles provêem do mais íntimo de nós mesmos, sejam bons ou maus, e aparecem sem que saibamos como”.

Em seu retorno encontrará a casa mutante que se modificava constantemente. [...] Descobre que tal casa não tem só o dom de se transformar, mas também de transformar quem nela habitar. [...] Desperta-lhe o desejo de amar. Esse desejo lhe brotou quando reviveu o prazer de ser amado e cuidado. Mas a quem amar?

Bastian entrará nas profundezas da terra e perscrutará os subterrâneos de sua mente, o inconsciente, à procura de imagens de sonhos que possam lhe servir de guia em sua travessia.

Retirou de seu peito a jóia e mergulhou na fonte das Águas da Vida. [...] Havia transcorrido apenas um dia, mas agora possuía a alegria de viver e de ser ele próprio. Nascera de novo. Havia no mundo múltiplas formas de alegria, mas no fundo todas elas resumiam-se numa só: a alegria de amar.

Quando Bastian retorna a livraria para falar sobre o livro roubado que desaparecera, Koreander, o proprietário, disse-lhe: “você não roubou esse livro, porque ele não pertence a mim nem a você, mas a alguma outra pessoa. Se não estou enganado, ele deve ter vindo de Fantasia. Quem sabe? Talvez agora, alguém o tenha nas mãos e o esteja lendo”.


O mito pessoal de cada um necessita ser narrado, vivido, para que possamos dar sentido à nossa existência. [...] Ao contar e recontar as nossas histórias, nomeamos nossos medos e desejos, e nos recriamos.

Somos todos parte de uma história sem fim. Devemos aprender a salvar a criança que vive em cada um de nós e recriarmos a fantasia.
É importante apresentarmos aos nossos filhos o valor dos livros, para que um dia possam descobrir a sua magia. Termino citando Clarice Lispector, com um delicioso conto chamado “Felicidade Clandestina”. Nele, Clarice é menina, de cabelos livres. Dia após dia batia na porta de uma colega que possuía o livro “As Reinações de Narizinho”, de Monteiro Lobato. ”Era um livro grosso, meu Deus, era um livro para se ficar vivendo com ele, comendo-o, dormindo-o”. Após uma longa tortura em que a promessa diária do livro era postergada, a mãe dessa menina lhe emprestou a obra por tempo indeterminado. ”Chegando em casa, não comecei a ler. Fingia que não o tinha, só para depois ter o susto de o ter. Criava as mais falsas dificuldades para aquela coisa clandestina que era a felicidade. Às vezes sentava-me na rede, balançando-me com o livro aberto no colo, sem tocá-lo, em êxtase puríssimo. Não era mais uma menina com um livro: era uma mulher com o seu amante”.


Portanto, amemos os bons livros, pois eles são mágicos, nunca são os mesmos ao longo dos anos. Dependendo da época que os lemos, se modificam e nos modificam. Não vamos deixar morrer o reino da fantasia!
A análise cria condições que nos possibilite nadar nas águas turbulentas da vida e beber de sua seiva, trilhando caminhos com o coração. As histórias precisam ser contadas para que possam ser atravessadas.


BASTOS, Carmem Teresinha Frotas B. A história sem fim. Disponível em: Acesso em: 28 out. 2009.


POUCO foda, nénão?

Sinfonia


"Bem, você não sabe o que você teve até você perder
Mas, então, nada fere tanto como uma espera
Eu estou com medo e não estou preparada, e eu me sinto como se estivesse caindo
Então, você poderia me dizer onde nós erramos?
"

[Symphony - Sarah Brighman]